Estava sentado à minha mesa, de frente para o monitor. Era um dia frio e, enquanto tomava um café, pensava sobre o que iria escrever. Naquele momento, tocava Untouchable, e aquela música me fez pensar em duas coisas.

A primeira é sobre como a música nos atinge, mas quero falar sobre isso em outro texto.

A segunda é sobre como escrever precisa ser solitário.

Não necessariamente estar sozinho em uma sala, sem ninguém por perto. Mas existe uma solidão necessária para escrever. Você precisa não apenas pensar, precisa sentir. Precisa perceber aquilo que acontece dentro de você e, depois, olhar novamente para tudo isso.

Não apenas de maneira trivial.

Talvez seja esse um dos trabalhos mais difíceis de quem escreve: olhar para aquilo que todos olham e tentar enxergar o que quase ninguém percebe.

Como Sherlock diz:
“Você vê, mas não observa. A distinção é clara.”

Talvez escrever seja um pouco isso.

Ver não é suficiente.

Você pode olhar para uma janela todos os dias e nunca perceber a maneira como a luz entra pela manhã. Pode ouvir uma música dezenas de vezes sem perceber que determinada frase, em determinado dia, vai atingir alguma coisa que estava escondida dentro de você.

Pode conversar com alguém e ouvir apenas as palavras, sem perceber o silêncio entre elas.

Escrever exige esse tipo de atenção.

E atenção exige tempo.

Por isso a solidão do escritor não é necessariamente estar longe das pessoas. Às vezes é justamente conseguir ficar longe do barulho delas por alguns minutos para conseguir escutar o próprio pensamento.

É nesse silêncio que algumas ideias aparecem.
É nele que lembranças voltam.

É nele que percebemos que aquilo que parecia apenas tristeza talvez fosse outra coisa. Que aquela irritação escondia medo. Que aquela saudade ainda estava ali. Que uma música que você ouviu dezenas de vezes só agora conseguiu dizer aquilo que você não sabia explicar.

Talvez escrever seja transformar esse tipo de percepção em palavras.

E isso não acontece quando estamos tentando produzir alguma coisa o mais rápido possível.

Acontece quando paramos.
Quando observamos.
Quando sentimos.

Quando deixamos uma ideia permanecer dentro de nós tempo suficiente para descobrir o que ela realmente queria dizer.

Talvez por isso escrever seja tão solitário.

Não porque o escritor não goste de pessoas.

Mas porque, em algum momento, ele precisa ficar sozinho com aquilo que sente.

E nem sempre é confortável.

Às vezes é justamente nessa solidão que encontramos coisas sobre nós mesmos que preferíamos não encontrar.

Mas talvez seja também aí que nascem os melhores textos.

Não daquilo que simplesmente vimos.
Mas daquilo que finalmente aprendemos a observar.